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  • Revista EiS

União da ilha apresenta sinopse


Foto: Rachel Waknin

É tempo de fé para a União da Ilha

Em tempo de fé para a União da Ilha do Governador, o Presidente Ney Filardi fala

sobre o enredo escolhido pela agremiação, apresenta a sinopse e a justificativa do

enredo, juntamente com sua diretoria, para a comunidade, e aproveita a ocasião para

realizar promessas aos torcedores insulanos.

Vejam a seguir alguns trechos do bate papo com o Presidente :

EIS – O que achou da temática escolhida? (Nzara Ndembu – Glória ao Senhor Tempo)

Dr. Ney – “O tema é lindo e rico, fiquei fascinado com o material que me foi entregue

pelo Severo Luzardo. Vocês verão a importância desse enredo. É uma temática inédita

Estamos proibidos esse ano de irmos para a avenida e perdermos pontos em samba

enredo. Aonde nós falhávamos, a gente ,procurou melhorar com as modificações que

foram realizadas. Um grande enredo já temos, agora falta um senhor samba que terá

que emocionar, isso é primordial.”

EIS – O que tem a dizer para a comunidade da União da Ilha para o carnaval 2017?

Dr. Ney – “A escola está com uma nova mentalidade, nova força. Tudo irá mudar para

este carnaval. Com certeza, não iremos medir esforços.

Estou contente em ver a comunidade apoiando, nunca vi tantas pessoas presentes

na explanação da sinopse, estão todos com sede de apagar o carnaval anterior.”

EIS- E quanto a questão do enredo não ser patrocinado, como suprir essa dificuldade?

Dr. Ney – “ Está muito difícil por não termos enredo patrocinado, mas por outro lado,

está difícil para qualquer outra co-irmã , com todo respeito. A maior riqueza que nós

temos, é a comunidade.”

Confira abaixo a sinopse e a justificativa do enredo da tricolor insulana para o carnaval

NZARA NDEMBU

GLÓRIA AO SENHOR TEMPO

GRES UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR 2017

“O Tempo não existe;

a não ser em todo o resto que há!

E Rei, o Tempo, é uma epopeia,

existindo nas coisas todas que hão!

É ausência que se apresenta

como transformadora presença.

Pois havia as terras dos Bantos, onde Nzambi Mpungu, o grande criador e

suprema entidade, vivia em seu suntuoso palácio, Nsanzala dia Nzambi, o

Templo da Criação, na origem do universo, entre ampulhetas mágicas e

ornamentos de ouro e marfim. Foi quando surgiu a necessidade de convocar

Kitembo, Rei de Angola, e transformá-lo no Inquice mágico do tempo: o tempo

cronológico e o tempo mítico estariam reunidos para toda a eternidade.

Raios e dias, tempestades e semanas, vulcões e meses, estações do ano e os

anos, maremotos e décadas, os segundos em séculos, os minutos em

milênios, as horas dando sentido à vida! Abriram-se mágicos portais, que

conduziriam razão e emoção no longo existir. O destino e a mutação.

No interior do Palácio, todo dia e noite, criaturas Nlundis e Fucumbas de ferro

protegiam a rara energia maleável e evolutiva- o Nguzu, que dava a Kitembo o

poder de transformar o mundo.

Foi assim que o espírito livre de Kitembo varou os céus e se fixou na terra,

alcançando conexão entre os dois mundos: o sobrenatural e o material. Criou

raízes fortes de uma árvore sagrada, que servia como meio de comunicação e

de transporte ente os deuses e os homens, em comunhão com o universo.

Já lá se vão 4,6 bilhões de anos! Sobre o supercontinente seminal, aliou-se à

Nzumbarandá, a mais velha dos Inquices, e juntos criaram a natureza na Terra,

solicitando que Katendê lançasse sementes que formariam florestas

guardadoras de majestosa biodiversidade.

Este equilíbrio foi maculado com a chegada do grande meteoro que

avermelhou o céu. Foi preciso a ação de Kiamboté Pambu Njila, em forma de

caminhos e de movimento, para que os continentes e o nível do mar

começassem a se mover. Pontes de terra abriram caminhos entre um bloco e

outro, permitindo que primitivos animais migrassem livremente.

No caminho, o Rei de Angola encontrou guerreiros de várias tribos e ensinou-

lhes a cultivar a terra. Era plantar para colher, domesticar alguns animais, e

aceitar que muitas espécies permaneceriam na natureza selvagem. Kiamboté

Kabila Duilo! Gongobira! Mutalambo: salve o caçador dos céus!

Kiuá Nkosi, o Senhor da forja, ao transformar o instrumento de pedra em metal

viu os guerreiros lutando para sobreviver. Da força do ferro, para o bem e para

o mal, surgiram os instrumentos de trabalho e nasceu a natureza bélica.

Kitembo não se abateu, e convocou Kavungo, Inquice da saúde, da morte e

Senhor dos mistérios e Nsumbu, o Senhor da terra, para celebrarem a

Kukuana: festa da fartura, da prosperidade de alimentos. O solo da mãe Terra

ganhava assim a sua celebração principal. Em contato com a natureza plena e

no reencontro com seus irmãos de Angola, o guerreiro Kitembo renovou seus

laços de fraternidade, essência de sua ancestralidade, e seguiu viagem.

No final da era onde as águas se separam da terra, surgiram os grandes

reservatórios debaixo e em cima da crosta do planeta. Angoro, Hongolo

Menha, o arco-íris no céu, foi quem disso lembrou Kitembo. Era o vapor, o

gasoso hídrico, a água, a seiva da vida, que circundaria toda a terra e trazendo

As águas que se precipitam do céu tocados por Kitembo, Angoro e

Bamburucema, se infiltram na terra e depois renascem límpidas e brilhantes.

Fontes de toda a vida, as águas fizeram Kitembo entender a longevidade, o

princípio de toda a cura e a bebida sagrada da imortalidade. Nos rituais

africanos, a água é o elemento fundamental em banhos de cheiro, de

descarrego; nas oferendas em cachoeiras; podendo, de forma mágica, também

se transformar em estado sólido, fazendo surgir na natureza o encanto das

geleiras, a neve e os icebergs.

Foi num mergulho nas águas salgadas, que Kitembo chegou ao palácio

subaquático, cercado de corais, e lá encontrou Samba Kalunga, guardiã dos

segredos dos mares profundos, e Nkianda, a dona de todo o mar e seus peixes

abissais de extrema beleza.

A benção das águas salinizadas interagiu com lagoas e lagos onde a vida e a

beleza das espécies aquáticas são mantidas e preservadas sob a proteção da

encantadora Ndandalunda, sereia de águas doces. Ndadalunda! Kissimbi!

Kitembo sabia que havia um destino solar no seu caminhar, o assim chamado

fogo universal. Diante do poder incandescente, louvou Nzazi, a divindade do

fogo, do trovão, da justiça. Estava diante do Inquice capaz de fulminar os

injustos com sua pedra de raio. Uma chama incandescente que indica o

caminho que deve ser seguido, por aquele que conhece os ensinamentos das

leis do Universo. A força energética, ligada ao impulso da vida, à paixão, à

transmutação; força avassaladora e incrível, associada à motivação, desejo,

intenção, ímpeto e espírito aventureiro. Faísca de divindade que brilha dentro

de nós e de todas as coisas vivas.

A Magia do Fogo pareceu ao Rei de Angola assustadora, porque os resultados

manifestam-se de forma rápida e espetacular, como nosso metabolismo e as

paixões que nos movem. O movimento da ampulheta não cansava de

surpreendê-lo. O encontro do sol com a lua, do dia com a noite, só foi possível

porque o fogo, condutor da magia, a chama da vida estava ali presente nos

raios de sol de mais um dia.

No Sol, nas estrelas, nas fogueiras, nas brasas, nas lavas, nos vulcões e nas

erupções. O frenesi que esquenta nos dias frios e faz transpirar nos dias

quentes. Foi quando Kitembo apreciou o eclipse, mais um espetáculo da

E como isso não bastasse, o fogo era o elemento da comunicação, pois o fogo

fala diretamente aos homens. Diante do fogo, o animal se espanta e foge, mas

o humano espanta-se e aproxima-se. E ele faz parte de cultos e rituais, e

desde os primórdios permitiu ao homem inúmeros avanços: o preparo de

alimentos e bebidas, caçadas e no afugentamento de animais e grupos rivais,

na fundição de metais e para fazer renascer as labaredas de fé no coração do

O Rei Kitembo de Angola curvou-se diante do azul celeste, repleto do elemento

Ar, e ali esperou até que surgisse ao seu lado Matamba, a Inquice rainha dos

ciclones, furacões, tufões, vendavais. A guerreira poderosa, amor e paixão do

Senhor do tempo. Contam as lendas que ele gostava de virar o tempo, apenas

para ver Matamba soprar seu vento, tão fundamentais para movimentar as

sementes outrora lançadas na terra. Ali, no chão da terra, onde o homem pisa

com toda a sua humildade, estava a magia do poder transformador dos

Matamba deu-lhe a mão, e seguiu com ele de volta para a África, para o Reino

de Nzambi. Ali uniram seus súditos na criação de um novo reino, gerando