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Patricia Chélida, uma madrinha de bateria que conhece do riscado


Foto: Arquivo pessoal

Madrinha de bateria do Império Serrano, Patricia Chélida, tem samba no pé, frequenta os ensaios e se dedica a participar do dia a dia da agremiação; Uma coisa rara nos carnavais de hoje, em se tratar de madrinhas e rainhas de bateria. Ela bateu um papo super interessante com a revista EiS, não percam nenhum detalhe dessa conversa.

EiS - Ano passado você assumiu o posto de rainha de bateria do Império Serrano; você desde criança já frequentava as quadras da Imperatriz Leopoldinense, foi rainha de carnaval no início dos anos 2000, enfim, é uma rainha de bateria que vem do samba; como você vê hoje em dia, tantas rainhas de bateria que não tem nenhum vínculo com o mundo do samba?

Patricia - Posto de rainha de bateria é uma coisa cobiçada por muitas mulheres e já não é de hoje. A grande maioria das mulheres que gostam de carnaval e se identificam com o carnaval, querem estar a frente de uma bateria e a maioria dessas mulheres não tem nenhuma ligação com o carnaval, não é sambista e não tem nenhuma historia no samba como eu tenho e várias outras que estão por aí; elas querem estar apenas pelo status, pela exposição, mesmo algumas delas já serem famosas, mas cobiçam o cargo mesmo assim. Eu acho que isso ainda acontece muito, pelo fato de rainha de bateria não valer nota, não ser quesito, a partir do momento que valer nota, isso vai mudar. Acho que o carnaval, no geral, é para todos, independentemente de raça, credo ou profissão, mas alguns cargos eu acredito que não poderia ser ocupado por pessoas que não tem nenhuma ligação com a agremiação ou o mundo do samba; algumas escolas priorizam o que a pessoa que está ali à frente da bateria pode ajudar, porque as escolas passam muitas dificuldades de patrocínios e outras coisas mais e é tudo muito difícil; essas mulheres acabam trazendo essa ajuda para a escola, aliviando de alguma maneira, estes custos da escola. Eu acho que tem vaga para atriz, modelo, sambista ou não, mas para rainha de bateria elas poderiam se preocupar ao menos em aprender o samba, a sambar, fazer parte da comunidade, ir nos ensaios de quadra, porque a maioria só aparece no ensaio técnico, poucos ensaios na quadra e às vezes não sabem nem o enredo da escola, não se interessa, só querem aparecer. Eu admiro muito a Mangueira e Beija-Flor, no sentido que mantém as meninas que são sambistas e são da comunidade, à frente de suas baterias.

EiS - Você continua a frente da bateria do Império Serrano para 2017?

Patricia - Eu hoje, no Império Serrano, continuo a frente da bateria sinfônica do samba, porém como madrinha de bateria; seremos duas a frente da bateria e eu acho que toda boa ajuda é sempre bem vinda para a escola, embora a comunidade veja de uma outra maneira, mas eu não me importo com isso, só quero poder ajudar e somar; estou ali porque amo, para o sambista isso é muito importante, não é só o fato de aparecer, tem todo um envolvimento com a escola e os segmentos da escola, o povo que faz o carnaval acontecer; é muito bom estar no lugar que você gosta de estar e que as pessoas gostam de estar com você; para muita gente, carnaval é só nos quatro dias de carnaval, para nós sambistas, é o ano inteiro.

EiS - Qual a sua escola de coração?

Patricia - Eu fui nascida e criada na Imperatriz Leopoldinense, desfilei em várias outras escolas, fui rainha de bateria da Estácio de Sá, do boi da Ilha do Governador, mas logo assim que saí da Imperatriz, eu ingressei por um bom tempo na Unidos da Tijuca, que é a escola que eu amo. Hoje tenho esse amor também pelo Império Serrano, então posso dizer que tenho carinho por todas as escolas, mas sou Unidos da Tijuca e Império Serrano.

EiS - Você viajou pelo mundo com o nosso carnaval, como é a imagem do nosso Rio de Janeiro e nosso samba fora do Brasil?

Patricia - Foi uma conquista muito boa para o sambista; o mundo inteiro tem um carinho muito grande por nossa cidade e nosso carnaval e pela beleza de nossas mulheres. Um dos trabalhos que eu fiz foi em Toronto em que eu participei e trabalhei; nós tínhamos um empresário Canadense, que também vive muito tempo no Brasil, que era o responsável por esse evento no Canadá, que era o Brazilian Carnival ball, o maior baile de gala de carnaval do mundo; eu trabalhava na produção e também como sambista, fiquei nesse evento por 10 anos; era um evento de gala maravilhoso aonde metade do que era faturado ficava no Canadá e a outra metade vinha para o Brasil em prol das crianças com câncer. Independente do Brazilian Ball, eu já estive em quase todos os países do mundo representando o nosso carnaval. Aprendi novas culturas, novos idiomas, o nosso carnaval é referência no mundo todo.

EiS - Você pretende futuramente atuar administrativamente falando, em alguma agremiação ou liga, emprestando todo o seu conhecimento e experiência com o carnaval?

Patricia - Na verdade eu nunca pensei diretamente nisso, até porque tenho meu ateliê, minha loja, eu nunca priorizei e nem pensei nessas coisas, mas eu não me importaria em de repente aceitar, caso houvesse algum convite para isso. Eu no momento não penso, mas se surgir um convite em um momento que eu possa assumir essas funções, eu poderia aceitar sim, porque é uma coisa que eu gosto muito, que eu vivo e faz parte do meu cotidiano.

EiS - Em relação ao carnaval do final dos anos 90, para o carnaval atual, você vê muita diferença, você acha que a comunidade vem se afastando de suas agremiações?

Patricia - Nitidamente houve uma mudança, no sentido de pessoas que trabalham no carnaval, sempre se aprimorando, tentando mostrar um espetáculo mais completo para as pessoas. Dentro dessas mudanças muitas coisas são acrescentadas e outras são eliminadas, mas é assim mesmo, temos que aceitar o novo. Em relação das comunidades dentro das escolas de samba, as feijoadas e todos os eventos que acontecem, não podem nunca afastar a comunidade, pelo contrário, todos podem participar, mas a prioridade é a comunidade da escola, o povo do samba, que tem que ser prioridade sempre.

EiS - O que você pode nos citar de positivo e negativo, que o carnaval levou para a sua vida pessoal?

Patricia - Eu sempre fui envolvida no carnaval desde nova, minha família toda sempre foi do carnaval; eu estudei, me formei, sou pedagoga e com o carnaval que é minha vida, pude viajar o mundo todo, aprimorei os meus estudos, conheci muitas pessoas, outras culturas, outros idiomas; ganhei muito dinheiro com o carnaval e fiz ótimas amizades com o carnaval. Eu tenho minha loja que vende produtos de carnaval, meu grupo que faz show de carnaval, meu ateliê de roupas e fantasias, minha vida é totalmente relacionada ao carnaval e me sinto muito feliz por isso. A parte negativa são algumas pessoas que não sabem lidar com outras pessoas e lidar com o poder; muitas pessoas fazendo fofocas, que criam problemas por inveja,falsidade, mas eu não deixo isso me afetar e nem diminuir o amor que eu sinto pelo carnaval e pelo samba.


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