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  • Revista EiS

Larguem minha fantasia Que agonia... Deixem-me Mostrar meu carnaval


Caro leitor, odeio que pessoas fiquem sugerindo coisas enquanto executo um trabalho. Por exemplo, neste espaço tenho liberdade da revista explosão in samba para dar minha opinião sobre os mais diferentes temas do Carnaval e não gostaria de escrever temas sugeridos pela revista.

Agora imagine que você é um carnavalesco e tem que ficar escutando sugestões sobre como deveria fazer o seu carnaval?

Nem um jurado pode fazer isso ao analisar o quesito enredo! Durante o curso de formação de jurados, é dito claramente que ninguém deve julgar esse quesito sugerindo coisas que faltam naquele enredo (por exemplo, um enredo sobre o Rio de Janeiro pode não falar sobre o Aterro do Flamengo e o jurado não pode penalizar a escola e dizer: “faltou falar do Aterro do Flamengo” – em anos anteriores isso chegou a acontecer mas não é a recomendação atual).

Se o julgador não pode, isso fica muito pior quando vem de fora e pessoas que não são do Carnaval tentam pautar os desfiles das escolas. Em anos passados, a intromissão externa ao Carnaval atingiu a Beija Flor em 2010 quando foi pré-julgada porque falaria de Brasília e não faria um protesto contra a corrupção. Joãozinho 30 sofreu com censura prévia sobre o que poderia ir ou não para a avenida com a Beija Flor em 1989 e com a Grande Rio em 2004 quando falou da camisinha. Em 2008 uma liminar impediu que a Viradouro levasse para a Avenida um carro que lembrava o Holocausto no enredo “é de arrepiar”, após reportagem do jornal o Globo. Em 2000 Chico Spinoza foi levado para a delegacia para dar explicações sobre uma imagem de Nossa Senhora dos Navegantes no carnaval da Unidos da Tijuca e Milton Cunha em 2004 enfrentou protesto ao conceber a Ala “os veadinhos de Pelotas” que teve seu nome mudado para “não dou Pelotas aos veadinhos”.

Em 2017 a polêmica atingiu em cheio a Imperatriz com o seu enredo sobre o Xingu. Tudo ía bem em Ramos até o Canal Rural (do grupo Band) iniciar uma série de reportagens insuflando o agronegócio contra o enredo. A polêmica chegou inclusive ao Congresso Nacional, onde um senador disse que irá se reunir com seus pares pra gastar o seu tempo e o nosso dinheiro para discutir o que ele define como difamação do agronegócio pela escola. Em anos recentes, a Vila foi campeã em 2013 e a Unidos da Tijuca vice em 2016 louvando o homem do campo e não tomei conhecimento de que os carnavalescos foram homenageados em Brasília (inclusive comentam que a Unidos da Tijuca não recebeu o prometido), além disso a própria Imperatriz em 2016 usou o campo pra falar de seus homenageados.

Sinceramente, a única coisa que me espanta nessa polêmica é não ver as entidades que organizam o carnaval emitirem uma nota de repúdio contra este descalabro. O único que até agora vi colocando as coisas em seu lugar foi o carnavalesco Cahê Rodrigues.

Que isso seja uma lição e que possamos em carnavais futuros ficar sempre ao lado do índio e não do caraíba e da cobiça


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