Buscar
  • Explosão In Samba

Comissão de Frente - Por Paulo César Alcântara


Velha Guarda da Portela na Comissão de Frente em 1989 - Foto: Delfim Vieira

A V


Me lembro muito bem de observar atentamente os desfiles das escolas de

samba naquele pequeno televisor em preto e branco... Anos idos em que anualmente

as noites de domingo e segunda-feira de carnaval eram reservadas para as mulheres

e as crianças da família, à assistir aos homens boêmios da casa, desfilando na bateria

das escolas de samba. O que para mim, naquela época, meados dos anos 70, era

muito difícil localizá-los em meio aquele exército de percussionistas, mesmo porque

eu sempre me desconcentrava, perdido em meio a tantas maravilhas que se

apresentavam. 

Minha compreensão era limitada e confesso que custei a entender o

comportamento estranho das amigas mais recatadas dos meus tios sambistas ao se

despirem no período de Momo e brincarem apenas com as peças íntimas, adornadas

de paetês e plumas e pernas cobertas por duas meias-calças sempre dos

mesmos modelos, cor da pele ou arrastão e como se não bastasse, elas ainda faziam

verdadeiras acrobacias em cima de saltos prateados enormes. Os carros alegóricos

deslizavam no meio da tela para deleite da família que apontava os artistas em seus

lugares de destaque, enquanto meus olhos infantis se encantavam com os mestres

de cerimônia.

Esses elementos eram senhores, elegantemente trajados e com enormes

sorrisos estampados como se fossem a um baile de gala. Usavam luvas brancas e

portavam muitas vezes cartolas e bengalas. Sim, estou falando da Comissão de

Frente, cuja função inicial era a de apresentar a escola, a comunidade, o trabalho

artístico realizado durante um ano ao público presente e aos julgadores. Os nobres

integrantes não sambavam, apenas acenavam e mostravam a agremiação. Opa,

essa não era a função do Rei Momo? Sim, mas vamos entender um pouco sobre o

surgimento dessa ala tão esperada e que traz um espetáculo à parte, abrindo o desfile

de suas agremiações. 

A partir daquele momento, aos dez anos de idade, eu decidi que seria um

integrante de Comissão de Frente. Essa paixão e interesse cresciam a cada ano e

nunca foi nutrida pela minha família que sempre torcia o nariz para meus desejos.

Apenas os boêmios, como uma velha tia, dona Célia, ex-baiana do Império Serrano e

o finado tio Cosme, mestre de bateria do bloco Bafo do Bode, hoje conhecido como

Renascer de Jacarepaguá me entendiam, mas não estou aqui para falar de mim e sim da

primeira ala a pisar na avenida, a Comissão de Frente.

Voltemos no tempo para lembrar que somos oriundos, politicamente falando,

de uma monarquia composta de reis, príncipes, princesas, corte, pompa e

circunstância e o apagar das luzes desse regime, deixou rastros da mal finada

nobreza. Rastros esses que a República acabou varrendo em definitivo com o passar

dos anos. Não era cabível ao dono da festa da galhofa, o próprio Rei Momo, nos

remeter ao luxo, a ostentação palaciana e a riqueza, o que não cabia bem para o

início de um regime político novo, que procurava se impor. 

O sistema, em contrapartida, criou o “Cidadão Samba”, uma eleição anual feita

para dar visibilidade ao verdadeiro sambista, assim como o Prêmio Machine traz luz

ao anônimo, ao brincante por convicção e paixão ao rito, ação aquela que, com o


tempo conseguiu afastar gradativamente o “Momo branco” de circulação, valorizando

as raízes afro. Em meados dos anos 30, Getúlio Marinho Silva, conhecido como

“Amor”, tornou-se o primeiro Cidadão Samba eleito em concurso carnavalesco de rua.

Passou a ser a referência de personagem a abrir os desfiles das escolas de samba,

legado esse que foi muito bem desempenhado mais tarde, a partir de 04 de fevereiro

de 1937, pelo sambista que mais fez pelo carnaval do Rio de Janeiro, o Ilustríssimo

Senhor Paulo da Portela. Com sua elegância e a insistência em afirmar que o

sambista não é um “molambo”, que está em uma escola de fazer samba, é um

acadêmico, é um artista, é um cidadão de respeito que consegue fazer seu diferencial

ganhando diversos seguidores e servir de exemplo para muitos sambistas que só se

preocupavam com sua agremiação e não com as demais. Torna-se manchete nos

principais veículos de comunicação e passa a ser a personagem que vem

apresentando as escolas de samba, abrindo a chance para que pudessem vir com

seus patronos, mecenas, compositores e personalidades de grande contribuição para

a vida da escola.

Surgia então a primeira ala antes do “pede passagem” e do carro abre alas, a

Comissão de Frente. Esta objetivava apresentar o enredo que começaria a ser

contado logo a partir do carro abre-alas ou do tripé, chamado de pede passagem,

decorado com o símbolo da escola e o nome da agremiação. A referida ala sofreu

alterações visíveis a partir de então, mais precisamente a partir dos anos oitenta,

quando aparece uma Comissão de Frente composta por mulheres, no ano seguinte

jogadores de basquete, posteriormente homens gigantes, representando

mergulhadores. O impacto visual despertou ali a correria para levar vantagem, trazer

outra surpresa que superasse o ano anterior, algo para sacudir o Setor 1, considerado

o termômetro da avenida, porque quando o Setor 1 não levanta e não grita é sinal de

que o desfile não empolgou.  

No decorrer dos anos noventa, as personagens da ala se apresentavam

fazendo movimentos geométricos e simétricos, e já na década seguinte os

organizadores liberaram o uso de patins e tripés para melhorar o desempenho dos

profissionais. Mas, a ala, lá no princípio, tinha que apresentar a escola, não é isso?

Será que dá para conciliar as duas coisas? Apresentar a escola ao público e aos

jurados e ainda fazer um show à parte. O fato é que a primeira geração de

componentes das comissões de frente, hoje em dia está na ala da Velha Guarda, mas onde estão os gigantes que as substituíram? Bem, uns tornaram-se coreógrafos, outros

comentaristas ou gestores de eventos, como eu, mas não perco as apresentações da

nova geração composta por bailarinos, contorcionistas e atores, até mesmo porque

minha paixão é pela ala em si, independente de como ela esteja sendo conduzida.

Todavia, me valho da bagagem adquirida para apresentar críticas e sugestões,

quando procurado por membros das mesmas. 

O comentarista, escritor, ator e gestor cultural, Haroldo Costa, defende a

preservação dos cumprimentos aos jurados e ao público como principal finalidade

para a Comissão de Frente. Essa opinião conservadora existe em alguns outros

segmentos da escola, sejam passistas quanto ao bailado masculino, baianas no que

se refere ao peso de suas vestes e até mesmo a velocidade intensa do ritmo da

bateria.  São temas recorrentes em debates, palestras e fóruns, que por sinal são as

questões mais polêmicas nesses encontros: Os modernos, com suas propostas

inovadoras ou os tradicionalistas, defensores do retorno, ou meio termo entre o

passado e o futuro. Seria possível voltar aos moldes iniciais sem causar transtornos?

Como seria a reação do público? O que justificar aos jurados que analisam as

apresentações por comparação? Voltam os sambistas da comunidade ou mantêm

profissionais contratados visando à obtenção de notas?

De qual lado você fica? Independente de sua opinião vale lembrar que o que

mais chama a atenção hoje nas agremiações, no que tange ao universo das

comissões de frente, são os crescentes enxertos de sambeiros. O termo é dado aos

artistas que trabalham para a escola sem vínculo emocional e nem o compromisso de

permanecer na agremiação por muito tempo; profissionais envolvidos em meio a

contratos extraordinários ou não e que dependendo do peso da escola de samba,

cobram por trabalhos realizados, notas e premiações obtidas em anos anteriores. 

Essas alterações no passe dos sambeiros geram muitas matérias

controversas nos sites de divulgação do carnaval, dando-lhes o status de astros,

verdadeiras celebridades acima do bem e do mal. Será que o são? Ao menos é o

comportamento manifestado por alguns desses pseudo-deuses quando presentes aos

eventos carnavalescos e pós-carnavalescos e procuram seus camarotes, sem ao

menos dignar-se a cumprimentar pessoas de outros segmentos da própria

agremiação. Atitude lamentável de quem não tem vínculo com o pavilhão ou com a

comunidade que defende durante os desfiles oficiais na Marquês de Sapucaí. Defesa

essa, não às cores ou ao símbolo da agremiação, mas sim às cifras, por vezes

milionárias, de seus contratos.

Egos à parte, voltemos a falar de raiz, paixão e fidelidade para com nossas

agremiações. Recentemente foi formado um grupo de sambistas amantes das

comissões de frente, como João Paulo Machado, do Majestades do Samba, o

bailarino Carlos Alves e desse que vos fala e que afinal de contas,não poderia ficar de fora

dessa iniciativa. O grupo visa fazer um estudo que leve à elaboração de um projeto

sobre a história das comissões de frente, além de contar a história tão rica desse

segmento indispensável e querido das agremiações. Esse projeto objetiva, também,

conseguir junto à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, que o dia quatro de fevereiro,

data em que o imortal Paulo da Portela iniciou esse trabalho de acenar, sorrir,

cumprimentar o público e apresentar a agremiação, abrindo os desfiles das escolas de

samba, seja declarado como o dia da Comissão de Frente, assim como já se tem o dia

comemorativo do Samba, o do Passista e o das Baianas. Essa honraria virá agraciar

e homenagear aqueles que literalmente dão seu suor e lágrimas, sem hora, sem dia e

sem cansaço, em ensaios intermináveis que enveredam noite adentro, além do

exaustivo desfile oficial, por suas agremiações, por seus pavilhões, ano após ano. Os

verdadeiros Mestres de Cerimônia da maior ópera do planeta. Quesito Comissão de

Frente é 10, Nota 10!!

Paulo César Alcântara



47 visualizações