Buscar
  • Explosão In Samba

Conheçam os dois candidatos à Presidente da Portela. Vencedor vai comandar a escola no centenário


Fabio Pavão (foto da internet) e Richard Rodrigues (foto Fernando Souza)


A Revista Explosão In Samba entrevistou os dois candidatos à Presidente da Portela, o vencedor das eleições vai comandar a escola no ano do Centenário, o que aumenta ainda mais a responsabilidade do novo mandatário da Azul e Branco de Oswaldo Cruz. Vejam o que cada Presidente pretende fazer em caso de vitória e o perfil de cada um:


EiS - Por que o Senhor é candidato a presidência da Portela ?


Richard - Porque acredito que posso contribuir para a melhoria da instituição. Escola

de samba não pode se resumir a um desfile anual, mas a um conjunto de ações que

precisa estar intimamente associado às comunidades de seu entorno. O alicerce de uma

agremiação é a Velha Guarda, que preserva os elementos de sua constituição, bem como

a comunidade que a ergueu e as suas torcidas. Portanto, precisamos dar vez e voz a

essas pessoas. Eu não tenho interesse em fazer uma gestão centralizadora. Não funciona

mais. É um modelo anacrônico, ultrapassado, de administração. Precisamos da

participação efetiva daqueles que, dos bastidores, constroem o espetáculo direta ou

indiretamente. Ou a gente avança neste terreno ou, no caso da Portela, permaneceremos

neste lugar, sem efetivamente disputar títulos. Escola de samba tem de entrar na avenida

para brigar pelo campeonato. E na Portela há um certo comodismo. Não é normal uma

escola não vencer individualmente há 52 anos. Desde 1970, com “Lendas e mistérios da

Amazônia” que a escola não ganha de verdade. Os títulos de 1980, 1984 e 2017 foram

divididos com outras agremiações. Sozinha, a Portela não vence há mais de cinco

décadas.


Pavão - Nos últimos 9 anos fui 1º vice-presidente do Conselho Deliberativo, na 1º gestão do Serginho Procópio e Marcos Falcon, depois fui Presidente do Conselho Deliberativo na gestão do Marcos Falcon e Luís Carlos Magalhães e depois, na terceira eleição da Portela Verdade fui vice-presidente administrativo e agora é natural que eu seja candidato a presidente. Acumulei experiência suficiente na parte administrativa da Escola, em relação ao carnaval eu fiz parte da Comissão de Carnaval, fui diretor de carnaval em 2017 até 2019, então acho que reúno condições de pleitear assumir o cargo de presidente da Escola. Meu vice é Junior Scafura, que tem muita experiência em colocar carnaval na avenida, foi diretor de carnaval nos dois últimos carnavais e temos tudo para fazer uma dobradinha de sucesso na Portela.


EiS - São 9 anos de gestão do grupo Portela Verdade. Quais os avanços e o que deixou de ser feito ?


Richard - Na própria pergunta de vocês há parte da resposta. São nove anos de gestão.

Vivemos um outro momento do Brasil e do mundo. E a Portela tem de se adequar a

essas transformações. A “Portela Verdade” teve o seu tempo de gestão: nove anos, ou

seja, três mandatos. Por quanto tempo mais desejam administrar a escola? Essa busca

pela perpetuação no poder é péssima. É ruim para a escola, um mau exemplo num

Brasil que vem lutando pela preservação das instituições democráticas. Não pode haver

retaliação política junto a pessoas que se manifestem a favor ou contra a uma

determinada chapa num processo eleitoral dentro de escola de samba. Os portelenses

precisam ter esse direito assegurado. Solicitamos à atual gestão a listagem atualizada de

sócios para verificarmos quantos votantes temos hoje na Portela, quem são, quando

foram incluídos e os seus respectivos contatos. Recebemos uma lista nominal. Não há

endereço, telefone, e-mail de nenhum sócio. Ou seja, não há equidade no processo.

Resguardam-se sob um estatuto anacrônico que preconiza a liberação da listagem dos

associados e a convocação de eleições somente dez dias antes do pleito. Que

democracia é essa? Como uma chapa de oposição pode disputar as eleições neste

contexto? Muitas pessoas tiveram o título de sócio contribuinte suspenso ou foram

excluídas, durante a pandemia, sem comunicação prévia por carta registrada, conforme

determina o próprio estatuto. Teriam de dar a essas pessoas o direito a recurso

administrativo. Não podem simplesmente cassar o título a bel prazer, sem que esses

sócios possam recorrer da decisão. Precisamos ser justos, transparentes, com todos os

associados. Fato é que a “Portela Verdade” com o Marcos Falcon era uma. A “Portela

Verdade”, que se encontra aí hoje, é completamente diferente.


Pavão - O saldo desse período é positivo. Foram 8 carnavais e em 7 deles a Portela retornou no desfile das campeãs, sendo 1 campeonato em 2017. São a melhor sequência de carnavais da Portela, desde a inauguração do sambódromo, só ficamos fora das campeãs em 2020. Queremos e podemos mais, estamos estruturando a Escola nesse sentido, tivemos contratempos no período do último governo municipal que não via o carnaval com bons olhos e a pandemia também nos prejudicou muito, pois ficamos 1 ano e meio com a quadra fechada. Temos projetos em andamento como a valorização da marca Portela, que iniciamos com o projeto de branding da marca em 2018, depois disso fizemos importantes parcerias, até internacionais como a com John Paul Gaultier, temos projetos como o Camarote Portela com um grupo de investidores que, além de divulgar a Escola, traz receitas sem custo e parcerias importantes e que temos certeza que, agora sem pandemia, teremos condições de ampliar além de voltar a fazer eventos na quadra tornando-a rentável também.


EiS - As disputas de samba tem sido traumáticas na Portela e hoje a ala de compositores está rachada, com membros suspensos. Como resolver essa questão, que reverbera por toda a Escola ?


Richard - Disputa de sambas-enredo precisam ser democráticas. A nossa chapa é pautada pelo republicanismo. Os compositores não podem brigar entre si em decorrência de vitórias ou derrotas. Temos de ouvir a ala dos compositores, a direção de bateria, a de Harmonia, passistas, baianas, destaques, enfim todos os segmentos, bem como a comunidade e as torcidas. Essas pessoas não podem ficar de fora do debate. Afinal, são elas que irão cantar o samba na avenida. Precisamos pacificar isso dentro da Portela. A instituição é maior do que qualquer divergência. Se as pessoas desejam transparência no processo de escolha de sambas por que não fazê-lo? Querem que os julgadores declarem o voto abertamente, justificando a escolha? Façamos! Pretendemos quebrar paradigmas. E o maior deles será dar voz e vez àqueles grupos historicamente excluídos dos processos de decisão dentro da escola. A “Portela Verdade” está buscando reintegrar, agora, às vésperas das eleições, compositores suspensos, como o Samir Trindade. É evidente que isso se trata de uma estratégia para angariar votos. Se não houvesse chapa oponente será que haveria perdão? Essa arrogância em definir quem fica ou quem sai da escola precisa acabar. A Portela não pode ser uma escola expulsória. Precisamos agregar, compartilhar afetos, unir esforços, resgatar a nossa alegria e vontade de conquistar título. Desejamos ouvir todos os compositores, um por um, propondo em seguida uma discussão coletiva amistosa. A Portela não pode mais ficar rachada em função de divergências internas. Vimos destacando, recorrentemente, que divergir é um direito, mas respeitar é um dever. Que nós nos respeitemos com vistas ao bem estar comum.


Pavão - As disputas de samba mudaram muito. Hoje em dia a internet tem influência direta na disputa. Neste ano, as disputas se deram em forma de live, com as quadras fechadas. É um novo cenário, com novo desenho de disputa. A Portela teve uma escolha como sempre foi, definida pelos segmentos da Escola, e o resultado foi bom. Todos os segmentos opinaram e decidiram pelo samba que era melhor para bateria, harmonia, para o desfile, e o samba cumpriu seu papel na avenida. Claro que em uma disputa, sempre teremos os que ficam incomodados em não vencer, ainda mais hoje em dia, tendo esse envolvimento das redes sociais, mas que faz parte de qualquer processo atual. Infelizmente não dá para agradar a todo mundo, mas a Portela é uma Escola democrática e que sabe entender essa situação.


EiS - Como várias Escolas, a Portela tem dificuldades financeiras. Como sanar as dívidas e qual o planejamento para atrair financiamento para a Escola ?


Richard - Veja bem, eu não posso falar de outras escolas. Conheço a situação da

Portela. Sabemos que a escola deve muito. Não temos esse valor com precisão. Falam

em R$ 10 milhões, R$ 15 milhões e até R$ 20 milhões. Há um obscurantismo

administrativo terrível na Portela, atualmente. Precisamos levantar o passivo real da

escola. A partir disso, começaremos as negociações para pagar todo mundo. A nossa

ideia é contratar uma auditoria externa que nos ajude neste diagnóstico. É preciso

esclarecer que não vamos adotar um processo expulsório ou condenatório, o vulgo

“caça às bruxas”. A gente não quer briga. Desejamos organizar a escola, pagar

funcionários e empresas credoras. Se conseguirmos fazer isso, já começaremos a nossa

administração no lucro. Há uma outra questão em particular que nos sensibiliza e se

relaciona à assistência médica para os baluartes da Velha Guarda. Vamos buscar

possíveis parcerias com planos de saúde a fim de que esses verdadeiros patrimônios da

Portela possam receber a assistência que merecem quando preciso for. Sabemos o quão

caro é um plano de saúde para idosos. Temos tudo para conseguir. É chegado o

momento de os portelenses refletir se a atual administração deve prosseguir ou se a

Respeita Portela, que propõe uma reformulação no modelo de gestão, merece a

oportunidade de mostrar a que veio. Ninguém aqui é aventureiro ou inexperiente.

Conhecemos escola de samba e a dinâmica dos barracões. Da forma como a Portela se

encontra hoje não está bom. Todos sabemos. Estamos na era do compliance, da

transparência. Não cabe mais na atual conjuntura sociopolítica do país omitir

informações da sociedade civil. Queremos que todos tenham acesso ao nosso estatuto,

que a listagem de sócios esteja publicada no site, bem como a prestação de contas. Essa

transparência é importante porque incentivará as próprias instâncias de governo e as

empresas privadas a investirem na escola. Desejamos fazer um balanço financeiro e

social ao término de cada ano. Temos urgência em modernizar administrativamente a

Portela. Dirão que somos “sonhadores”, que “Carnaval é assim mesmo”. Isso é uma inverdade. Há escolas que sempre nos deram ótimos exemplos de gestão A marca

Portela é uma potência. É tão poderosa quanto a de um time de futebol renomado da

primeira divisão. Não conseguimos compreender o porquê de em quase uma década de

administração, a atual gestão não ter feito nada disso.

Pavão - A pandemia afetou muito nosso orçamento. Ficamos sem poder utilizar nossa quadra e isso foi crucial. Nossa receita de quadra é muito importante, afeta nossas parcerias e compõe parte expressiva das nossas receitas, junto com as verbas públicas de subvenção e mais a parte repassada pela Liesa. Ainda assim, mesmo com todos os problemas, conseguimos firmar parcerias e colocamos um carnaval muito competitivo na avenida. Tivemos várias premiações, inclusive de melhores fantasias, as alegorias foram das melhores, prejudicadas por um erro humano em uma alegoria, senão teríamos notas máximas no quesito, A parte plástica do nosso desfile não foi comprometida, apesar das dificuldades, houve investimento suficiente para colocarmos um belo carnaval na avenida. Quanto as dívidas da Escola, sempre foram apresentadas de forma clara aos sócios nas nossas demonstrações de contas. Estamos desde 2013, com nossos departamentos financeiro e jurídico, empenhados nessas resoluções. Temos alguns esqueletos no armário como a questão do IPTU, dívida entre 1979 e 2013, que já diminuímos em 25%, mas ainda pendente e estamos trabalhando junto a prefeitura a resolução dessa questão que é muito importante e com custo muito alto. Continuaremos trabalhando no sentido de que essas dívidas não atrapalhem o carnaval da Escola, e temos conseguido fazer carnavais competitivos e belos, basta ver nosso retrospecto nestes 9 anos.

EiS - Quais os planos para os projetos de inserção cultural da Escola e sua comunidade ?


Richard - Há uma questão que nos incomoda muitíssimo e sobre a qual nos

debruçamos nos últimos dias. Por que motivos a atual gestão tirou a Surica da feitura da

feijoada mensal? Foi essa administração que a afastou e veio contratando empresas para

a produção do prato que dá nome ao evento mais importante da escola. A Feijoada da

Família Portelense é um projeto idealizado pelo Marquinhos de Oswaldo Cruz, que,

recentemente, também se afastou da Portela por divergências relacionadas à disputa de

sambas-enredo. Foi essa administração que provocou o afastamento de outros expoentes

da escola. As pessoas se sentem hostilizadas. A Portela é uma escola elegante por

natureza. Lembremos de Paulo da Portela, o seu fundador. Logo, resgatar os elos

perdidos com a comunidade, as torcidas, os segmentos e os frequentadores da antiga

será uma de nossas premissas. Na verdade, a gente deve distinguir escola de samba de

desfiles. As escolas precisam ser pensadas como instrumentos de transformação das

comunidades em que estão inseridas. Elas talvez sejam o elo cultural e o palco de

representatividade mais efetivo existente no território em que se localizam. Já os

desfiles são um espetáculo e têm de ser tratados de forma empresarial, porque ao longo

das décadas as escolas foram cedendo às pressões da indústria do entretenimento.

Candeia lutou contra isso. Mas chegamos até aqui. Está estabelecido. O que precisamos

fazer é resguardar, proteger, amparar os nossos profissionais que se dedicam por inteiro

ao processo de construção dos desfiles. A gente não pode fazer um espetáculo lindo na

avenida, com pessoas em situação de vulnerabilidade nos bastidores. Na Portela, podem

ter a certeza de que esse quadro se modificará. Eu não compactuo com o que vem

acontecendo. A gente quer reintegrar a Portelinha à nossa administração, dando

autonomia, claro, aos seus gestores para reinseri-la no circuito cultural da cidade. Foi a

primeira sede da escola. É preciso valorizá-la. Pretendemos criar um centro de

documentação e pesquisa na Portela a fim de preservar a memória da instituição,

atendendo a professores, a alunos e a pesquisadores em geral de nossa história.

Buscaremos, em parceria com o poder público, criar o centro de convivência Paulo da

Portela, que incentivará a prática esportiva junto aos jovens da Grande Madureira. O

intento é formar atletas para competições em nível regional, nacional e internacional. E

vamos manter os projetos atuais que funcionam. Não há motivos para desconstruirmos o

que a comunidade abraçou. Não temos essa filosofia.


Pavão - A Portela tem um departamento cultural muito atuante e responsável pela realização de vários projetos. que foram prejudicados pela pandemia, mas ainda assim mantidos muitos de forma online.

Tivemos agora a FliPortela, com ampla divulgação pela mídia. Temos o departamento de cidadania que atua oferecendo cursos pré-vestibular, aulas de dança, acompanhamento dos nossos idosos, nossa Velha Guarda, nosso departamento Feminino. Durante a pandemia tivemos o Águia Solidária distribuindo cestas básicas, máscaras em conjunto com o departamento social. A Portela é tida como exemplo nessa área e continuaremos a buscar cada vez mais nos integrarmos com nossa comunidade neste sentido.


EiS - A atual gestão definiu o enredo em homenagem ao centenário da Escola. Houve comum acordo entre as chapas com relação ao enredo e renovação dos profissionais do carnaval ?


Richard - Não. Definiram e divulgaram. Particularmente, achamos que deveriam ter aguardado. Talvez não tivessem vislumbrado que poderia haver uma chapa de oposição. Mas é unanimidade de que, no ano de seu centenário, a escola lance mão de um enredo por meio do qual contará a própria história. Renato Lage fez isso lindamente em 1990, na Mocidade, com “Vira, virou, a Mocidade chegou”. São profissionais excelentes, de ponta. Eles e outros, que tiveram os contratos renovados, precisam ser respeitados. São operários da arte e merecem ser tratados com dignidade. Vivemos um período complexo

no setor cultural brasileiro. Foi o segmento que mais sofreu com a pandemia. O

primeiro a parar e o último a retomar as atividades. Porque a maioria dos eventos

culturais são de natureza aglomerativa. O Carnaval sofreu muito. Não vamos sair

demitindo e rescindindo o contrato das pessoas. Seria injusto e leviano. Iremos dialogar

com todos a fim de compreender o cenário em que cada um veio trabalhando, quais as

condições que, até então, estão sendo oferecidas a eles. Não podemos culpabilizar, por

quaisquer deslizes, carnavalescos, casais de mestre-sala e porta-bandeira, bateria,

intérpretes, Harmonia, entre outros, se esses trabalham em meio a adversidades, tendo

salários atrasados, por exemplo. Há pessoas que dependem financeiramente da escola

para sobreviver, que só possui essa fonte de renda. Por outro lado, há os trabalhadores

do barracão e da quadra. Esse corpo de funcionários totalmente invisibilizado deve ser

acolhido com o máximo de carinho e respeito. Eles merecem a nossa atenção redobrada.

Relações de trabalho precarizado em pleno século 21? Isso precisa e deve ser revisto e

extinto. Tenho ressaltado essa questão veementemente. Na Portela, o objetivo é

legalizarmos todos os profissionais que prestam serviços para a escola. Precisam ter

direitos trabalhistas garantidos, ou seja, carteira de trabalho assinada, férias

remuneradas, décimo terceiro. Há singularidades. Tem profissionais que trabalham

sazonalmente, por apenas alguns meses. Há outros que são MEI. Mas isso

identificaremos e resolveremos. A questão é mapear e organizar essas relações. No

cotidiano, se houver organização, as pessoas têm de cumprir carga horária definida. A

gente não pode ter funcionário dormindo no barracão em cima de carro alegórico,

colchonetes ou papelões. Isso é desumano.


Pavão - Não. Nossa eleição é em maio, e se não agíssemos, ficaríamos sem profissionais disponíveis no mercado. neste ano o carnaval foi em abril, e ainda não tínhamos nem chapas formadas. Na semana seguinte ao carnval, todo mundo já está se movimentando e se a Portela fosse esperar as eleições ficaríamos para trás. Sempre foi assim na Portela e sempre houve compreensão quanto a isso. A nova gestão que assumir poderá tomar as medidas que achar melhor. As questões políticas não podem enfraquecer a Portela e essa tomada de decisões tem sempre que ser no momento certo e acompanhadas do intuito de serem o melhor para a Portela.



As perguntas foram elaboradas por Owerlack Junior












485 visualizações0 comentário