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União da ilha apresenta sinopse

13.07.2016

                                Foto: Rachel  Waknin

 

 

 

É tempo de fé para a União da Ilha

Em tempo de fé para a União da Ilha do Governador, o Presidente Ney Filardi fala

sobre o enredo escolhido pela agremiação, apresenta a sinopse e a justificativa do

enredo, juntamente com sua diretoria, para a comunidade, e aproveita a ocasião para

realizar promessas aos torcedores insulanos.

Vejam a seguir alguns trechos do bate papo com o Presidente :

 

 

EIS – O que achou da temática escolhida? (Nzara Ndembu – Glória ao Senhor Tempo)

 

Dr. Ney – “O tema é lindo e rico, fiquei fascinado com o material que me foi entregue

pelo Severo Luzardo. Vocês verão a importância desse enredo. É uma temática inédita

Estamos proibidos esse ano de irmos para a avenida e perdermos pontos em samba

enredo. Aonde nós falhávamos, a gente ,procurou melhorar com as modificações que

foram realizadas. Um grande enredo já temos, agora falta um senhor samba que terá

que emocionar, isso é primordial.”

 

EIS – O que tem a dizer para a comunidade da União da Ilha para o carnaval 2017?

 

Dr. Ney – “A escola está com uma nova mentalidade, nova força. Tudo irá mudar para

este carnaval. Com certeza, não iremos medir esforços.

Estou contente em ver a comunidade apoiando, nunca vi tantas pessoas presentes

na explanação da sinopse, estão todos com sede de apagar o carnaval anterior.”

 

EIS- E quanto a questão do enredo não ser patrocinado, como suprir essa dificuldade?

 

Dr. Ney – “ Está muito difícil por não termos enredo patrocinado, mas por outro lado,

está difícil para qualquer outra co-irmã , com todo respeito. A maior riqueza que nós

temos, é a comunidade.”

 

Confira abaixo a sinopse e a justificativa do enredo da tricolor insulana para o carnaval

 

NZARA NDEMBU

GLÓRIA AO SENHOR TEMPO

 

GRES UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR 2017

 

“O Tempo não existe;

a não ser em todo o resto que há!

E Rei, o Tempo, é uma epopeia,

existindo nas coisas todas que hão!

É ausência que se apresenta

como transformadora presença.

Pois havia as terras dos Bantos, onde Nzambi Mpungu, o grande criador e

suprema entidade, vivia em seu suntuoso palácio, Nsanzala dia Nzambi, o

Templo da Criação, na origem do universo, entre ampulhetas mágicas e

ornamentos de ouro e marfim. Foi quando surgiu a necessidade de convocar

Kitembo, Rei de Angola, e transformá-lo no Inquice mágico do tempo: o tempo

cronológico e o tempo mítico estariam reunidos para toda a eternidade.

Raios e dias, tempestades e semanas, vulcões e meses, estações do ano e os

anos, maremotos e décadas, os segundos em séculos, os minutos em

milênios, as horas dando sentido à vida! Abriram-se mágicos portais, que

conduziriam razão e emoção no longo existir. O destino e a mutação.

No interior do Palácio, todo dia e noite, criaturas Nlundis e Fucumbas de ferro

protegiam a rara energia maleável e evolutiva- o Nguzu, que dava a Kitembo o

poder de transformar o mundo.

Foi assim que o espírito livre de Kitembo varou os céus e se fixou na terra,

alcançando conexão entre os dois mundos: o sobrenatural e o material. Criou

raízes fortes de uma árvore sagrada, que servia como meio de comunicação e

de transporte ente os deuses e os homens, em comunhão com o universo.

Já lá se vão 4,6 bilhões de anos! Sobre o supercontinente seminal, aliou-se à

Nzumbarandá, a mais velha dos Inquices, e juntos criaram a natureza na Terra,

solicitando que Katendê lançasse sementes que formariam florestas

guardadoras de majestosa biodiversidade.

Este equilíbrio foi maculado com a chegada do grande meteoro que

avermelhou o céu. Foi preciso a ação de Kiamboté Pambu Njila, em forma de

caminhos e de movimento, para que os continentes e o nível do mar

começassem a se mover. Pontes de terra abriram caminhos entre um bloco e

outro, permitindo que primitivos animais migrassem livremente.

No caminho, o Rei de Angola encontrou guerreiros de várias tribos e ensinou-

lhes a cultivar a terra. Era plantar para colher, domesticar alguns animais, e

aceitar que muitas espécies permaneceriam na natureza selvagem. Kiamboté

Kabila Duilo! Gongobira! Mutalambo: salve o caçador dos céus!

Kiuá Nkosi, o Senhor da forja, ao transformar o instrumento de pedra em metal

viu os guerreiros lutando para sobreviver. Da força do ferro, para o bem e para

o mal, surgiram os instrumentos de trabalho e nasceu a natureza bélica.

Kitembo não se abateu, e convocou Kavungo, Inquice da saúde, da morte e

Senhor dos mistérios e Nsumbu, o Senhor da terra, para celebrarem a

Kukuana: festa da fartura, da prosperidade de alimentos. O solo da mãe Terra

ganhava assim a sua celebração principal. Em contato com a natureza plena e

no reencontro com seus irmãos de Angola, o guerreiro Kitembo renovou seus

laços de fraternidade, essência de sua ancestralidade, e seguiu viagem.

No final da era onde as águas se separam da terra, surgiram os grandes

reservatórios debaixo e em cima da crosta do planeta. Angoro, Hongolo

Menha, o arco-íris no céu, foi quem disso lembrou Kitembo. Era o vapor, o

gasoso hídrico, a água, a seiva da vida, que circundaria toda a terra e trazendo

As águas que se precipitam do céu tocados por Kitembo, Angoro e

Bamburucema, se infiltram na terra e depois renascem límpidas e brilhantes.

Fontes de toda a vida, as águas fizeram Kitembo entender a longevidade, o

princípio de toda a cura e a bebida sagrada da imortalidade. Nos rituais

africanos, a água é o elemento fundamental em banhos de cheiro, de

descarrego; nas oferendas em cachoeiras; podendo, de forma mágica, também

se transformar em estado sólido, fazendo surgir na natureza o encanto das

geleiras, a neve e os icebergs.

Foi num mergulho nas águas salgadas, que Kitembo chegou ao palácio

subaquático, cercado de corais, e lá encontrou Samba Kalunga, guardiã dos

segredos dos mares profundos, e Nkianda, a dona de todo o mar e seus peixes

abissais de extrema beleza.

A benção das águas salinizadas interagiu com lagoas e lagos onde a vida e a

beleza das espécies aquáticas são mantidas e preservadas sob a proteção da

encantadora Ndandalunda, sereia de águas doces. Ndadalunda! Kissimbi!

Kitembo sabia que havia um destino solar no seu caminhar, o assim chamado

fogo universal. Diante do poder incandescente, louvou Nzazi, a divindade do

fogo, do trovão, da justiça. Estava diante do Inquice capaz de fulminar os

injustos com sua pedra de raio. Uma chama incandescente que indica o

caminho que deve ser seguido, por aquele que conhece os ensinamentos das

leis do Universo. A força energética, ligada ao impulso da vida, à paixão, à

transmutação; força avassaladora e incrível, associada à motivação, desejo,

intenção, ímpeto e espírito aventureiro. Faísca de divindade que brilha dentro

de nós e de todas as coisas vivas.

A Magia do Fogo pareceu ao Rei de Angola assustadora, porque os resultados

manifestam-se de forma rápida e espetacular, como nosso metabolismo e as

paixões que nos movem. O movimento da ampulheta não cansava de

surpreendê-lo. O encontro do sol com a lua, do dia com a noite, só foi possível

porque o fogo, condutor da magia, a chama da vida estava ali presente nos

raios de sol de mais um dia.

No Sol, nas estrelas, nas fogueiras, nas brasas, nas lavas, nos vulcões e nas

erupções. O frenesi que esquenta nos dias frios e faz transpirar nos dias

quentes. Foi quando Kitembo apreciou o eclipse, mais um espetáculo da

E como isso não bastasse, o fogo era o elemento da comunicação, pois o fogo

fala diretamente aos homens. Diante do fogo, o animal se espanta e foge, mas

o humano espanta-se e aproxima-se. E ele faz parte de cultos e rituais, e

desde os primórdios permitiu ao homem inúmeros avanços: o preparo de

alimentos e bebidas, caçadas e no afugentamento de animais e grupos rivais,

na fundição de metais e para fazer renascer as labaredas de fé no coração do

O Rei Kitembo de Angola curvou-se diante do azul celeste, repleto do elemento

Ar, e ali esperou até que surgisse ao seu lado Matamba, a Inquice rainha dos

ciclones, furacões, tufões, vendavais. A guerreira poderosa, amor e paixão do

Senhor do tempo. Contam as lendas que ele gostava de virar o tempo, apenas

para ver Matamba soprar seu vento, tão fundamentais para movimentar as

sementes outrora lançadas na terra. Ali, no chão da terra, onde o homem pisa

com toda a sua humildade, estava a magia do poder transformador dos

Matamba deu-lhe a mão, e seguiu com ele de volta para a África, para o Reino

de Nzambi. Ali uniram seus súditos na criação de um novo reino, gerando

trabalho e prosperidade por muitos séculos, emanando para todos os povos

irradiações de amor e respeito pelo meio ambiente, a fonte inesgotável de vida

para as futuras gerações.

Que nossa vida seja um canal de manifestação do Reino de Nzambi, onde quer

que estejamos. Que nossa ação, nossa palavra, nosso agir, revele esse

maravilhoso reino com todas as suas potencialidades. E assim abriremos de

volta o caminho para que possamos viver o nosso Tempo.

Como será o futuro da humanidade e a preservação dos elementos naturais? A

união dos povos pela preservação da vida, responderia Kitembo.

Na história do Tempo, a árvore sagrada da vida deixou registrada para todo o

sempre esta cronologia: as raízes do passado, as folhas do presente e os

frutos do futuro. Saravá! Nzara Ndembu!

De um velho soba do deserto de Namibe,

para União da Ilha do Governador.

É a bússola majestosa que guia os navios, os pontos cardeais, o vento nas

velas das embarcações, as mudanças do tempo astral e do tempo cronológico

do homem na Terra.

Senhor da razão e da emoção. Condutor das sensações e das emoções que o

ser humano sofre ao longo da vida. Mutação, evolução! Faz mudar os rumos

de tudo. O tempo está na luta, na guerra, em momentos especiais que

mudaram destinos e amarraram heranças e civilizações mundo a fora.

A União da Ilha pede licença para dançar no ritmo do Tempo. Tal qual o povo

guerreiro de Além-mar, veste a ancestralidade de um Rei consagrado no tempo

e no espaço. Faz do carnaval, o renascimento e a celebração do Tempo Rei,

aquele que detém o poder de tudo transformar. Com as páginas do passado,

escrever no tempo presente o futuro para uma nova era, um novo tempo.

Com o canto e a força do seu povo, pede bênçãos a Kitembo, e emoldura as

cores de todos os credos e todas as crenças no seu pavilhão.

Batam os tambores para um novo tempo: é tempo de fé para a União da Ilha!

Ê tempo! Ê tempo Nzara Ndembu!

 

Enredo: Severo Luzardo e André Rodrigues

 

Matéria da free lance Rachel Waknin

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