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Quem é o dono do samba?

08.11.2016

 

Muitas escolas já escolheram seus hinos para o carnaval 2017. Na maioria das vezes, a escolha de um samba não é a tarefa mais fácil do pré-carnaval. Os modelos de escolha são os mais variados, por exemplo: algumas escolas formam comissões, outras convidam pessoas de fora da agremiação e que tem notório saber sobre o tema e outras são adeptas da escolha feita única e exclusivamente pelo presidente (lembrando aquela máxima do futebol de que “pênalti é tão importante que quem devia bater era o presidente”). Esse processo é sempre passional, afinal de contas os compositores tratam suas obras como filhos e nenhum pai quer ver o seu filho morrer antes de conquistar o mundo.
Mas no final das contas, quem é o dono do samba enredo de uma escola? Em minha opinião, desde que as obras são apresentadas, elas passam a ser propriedade da escola e a agremiação pode fazer o que bem entender com suas obras. Existem diversas formas como isso pode ocorrer:
- Recall – Algumas agremiações por vezes não ficam satisfeitas com a safra apresentada pelos compositores e optam por devolver todas as obras para alteração (recentemente foi o caso de Mocidade 2015 e Unidos da Tijuca 2017). Um outro motivo que pode gerar a devolução da obra é o pedido para a inclusão de alguma palavra na obra (Grande Rio 2010 – devolveu os sambas e solicitou que fosse incluído “camarote número um” em todos);
- Alterações sugeridas – Algumas escolas optam por após a apresentação dos sambas, existir um período em que os compositores poderiam conversar com a direção de harmonia da escola e corrigir trechos considerados deficientes em sua obra. No início do século, a Beija Flor capitaneada pelo Laíla fez isso muitas vezes, tendo ótimos resultados;
- Fusão de obras – No momento da escolha, a agremiação pode não estar totalmente satisfeita com nenhuma das obras e optar por juntar sambas. Esta não é uma prática nova, em 1975 o Salgueiro de Laíla fez a junção de obras finalistas (como curiosidade, este samba está disponível no youtube e foi gravado e cantado na avenida pelo próprio Laíla em um desfile que conquistou o título). Para fazer a fusão, deve-se entender bastante de melodia para que ela ocorra numa parte em que os sambas se encaixem sem grandes problemas. Existem ótimas fusões (Beija Flor 2005) e fusões muito ruins (Vila Isabel 2008 – onde existe clara quebra melódica);
- Alterações após a escolha – Algumas escolas preferem alterar seus sambas após a escolha, buscando corrigir alguma passagem do enredo, acertar a métrica ou a prosódia de algum trecho. Mais uma vez, Laíla foi um dos pioneiros e juntamente com Joãosinho 30 já alterava o samba escolhido do Salgueiro em 1974 (no filme “Trinta” tem um trecho que retrata isso com liberdade poética).
Existe alguma problema nisso? Não! Sei que os compositores não gostam que toquem em suas obras, porém o objetivo de todos é que a escola gabarite o quesito e para isso muitas vezes as adaptações são necessárias nas mais diversas fases da disputa. Esse ano, cheguei a ver compositor derrotado reclamando que a escola escolheu um samba que em sua opinião iria ser alterado antes da gravação como se isso fosse um crime (e a tal alteração nem ocorreu). Sei da ligação emocional dos compositores com suas obras, mas é importante que se saiba que em primeiro lugar sempre estará a escola de samba, que sempre será a dona do samba!


 

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