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"Super escolas de samba S/A, super alegorias, escondendo gente bamba, que covardia..." - Trecho do samba do Império Serrano de 1982

23.01.2018

                                             Joãozinho Trinta, em carnaval de 1976 - Foto: Redes sociais

 

 

Ao menos uma reflexão se faz necessário, para debatermos o rumo que está tomando o nosso carnaval. Em 1982, o samba enredo do Império Serrano fazia fortes críticas ao que se estava tornando a nossa festa profana. Já se vão 37 anos e alguns fatos trazem de volta essa reflexão. Recentemente, Gabriel David, o herdeiro da Beija-Flor de Nilópolis deu declarações polêmicas sobre o entretenimento, carnaval. Na última quinta-feira, o ensaio da Beija Flor foi interrompido para apresentação de JoJo Todynho, algo que causou polêmica não só entre componentes da escola, como também entre várias personalidades do mundo do samba. A Revista Explosão In Samba reproduz para seus leitores um texto de Isabela Reis, estudante de jornalismo na UFRJ, amante do nosso carnaval e torcedora da Beija Flor de Nilópolis, para que possamos refletir sobre esse assunto:

 

"MORTE AO CARNAVAL MODERNO

Aos apaixonados por carnaval: FUJAM enquanto há tempo! Encontrem outros prazeres! Futebol, poker, purrinha, qualquer coisa.

O que aconteceu ontem na quadra da Beija-Flor é o retrato em 3x4 autenticado da falência do carnaval tradicional raiz como conhecemos. O ensaio foi interrompido à 1:40h da madrugada para uma apresentação de Jojo Toddynho. Nem Roberto Carlos (!!) promoveu uma algazarra dessa.

 

As alas todas se desmobilizaram, mas eu crente que íamos voltar ao ensaio. Emendaram duas passadas do samba desse ano, ainda com a escola desarmada. Quando, não mais que de repente, o puxador (que não era o Neguinho, ele não foi ???) começa “Explode, Coração!”, que emendou com “Hoje eu vou tomar um porre” e, pasmem, ARAKETU.

Amigos, a MORTE seria menos dolorosa.

Os componentes das alas, a verdadeira FORÇA MOTRIZ da Beija-flor, que saíram de outros municípios da Baixada e do Rio, numa quinta-feira à noite, tendo que trabalhar cedo no dia seguinte marcaram cinco minutos e foram embora em debandada. ÀS DUAS E DEZ DA MADRUGADA.

Porque caso não tenha ficado claro, para a gente, ensaio não é festa. É ENSAIO, do grego TRABALHO. Se tem samba, ótimo. Se não tem, um abraço.

Antes das 2:30h, as luzes se apagaram e o lugar virou um baile funk para 100 pessoas na pista e para o camarote dos filhos da puc, que é o que está virando a Beija-flor. Uma disputa egoica pela atenção dos jovens ricos da zona sul, sem que haja nenhuma valorização da comunidade, na cultura e do terreiro presente na Rua Pracinha Wallace Paes Leme.

São, pelo menos, 10 anos frequentando ensaios da quadra da Beija-Flor. Eu nunca vi nada parecido. Eu nunca vi ensaio terminar antes de 3h da manhã. Sem a bateria descer do palco. Sem Laíla dar esporro no microfone, sem ter, ao menos, 30 min só de canto a capela dos componentes. Cantei meu parabéns com ÓDIO e fui-me embora.

Ontem, a Beija-Flor começou a acabar. Quem viu, viu. Aviso aos navegantes: começo também o meu processo de desembarcar desse absurdo. Prefiro ver a Beija-Flor na Intendente, do que ver o que vi ontem.

Foi bom enquanto durou.

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1. Esse post fala sobre uma transformação do movimento cultural CARNAVAL. Não somente sobre a Beija-flor.

2. Eu amo funk. Estudo funk. Ouço funk. Fiz mais da metade dos meus trabalhos acadêmicos da faculdade sobre funk. Costumo dizer que é "o ritmo da minha vida". Esse post não é sobre funk ou sobre a Jojo Toddynho. É sobre uma transformação do movimento cultural CARNAVAL."

 

OBS.: Texto retirado das redes sociais de Isabela Reis, na íntegra. A direção da revista agradece à Isabela por nos ter permitido a reprodução de seu texto.

 

 

 

 

 

 

 

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