© 2016 Revista Explosão in Samba | Criado por Faccilite

Papo reto com a secretária Municipal de cultura do RJ, Nilcemar Nogueira - "As escolas começaram a esconder o sambista, a tirá-lo do protagonismo dos desfiles".

26.01.2018

 Secretária de cultura do município do Rio de Janeiro, Nilcemar Nogueira. Foto: Redes sociais

 

 

A Revista Explosão In Samba "bateu um papo reto" com a Secretária Municipal de Cultura da cidade do Rio de Janeiro, Nilcemar Nogueira, neta de dona Zica e de Mestre Cartola, Doutora em Psicologia Social, mas acima de tudo uma sambista de raíz. Nilcemar falou sobre seu desafio à frente da secretaria de cultura, o rumo que o carnaval vem tomando, sua paixão Estação Primeira de Mangueira e muito mais. Esse bate papo está imperdível, confira:

 

 

 

 

REIS - Após um ano à frente da secretaria de cultura, quais os pontos mais positivos de seu trabalho?

 

Nilcemar - Eu acredito que um gestor deve trabalhar pela criação de uma política de estado. Por isso venho pautando minha gestão no desenvolvimento de políticas estruturantes, que permitam o acesso à cultura para todas as camadas da população e em todas as regiões geográficas da cidade. Com isso em mente, a Secretaria Municipal de Cultura do Rio trabalha com cinco eixos estratégicos bem definidos, a começar por uma escuta participativa, passando pela valorização da rede própria de equipamentos culturais, da memória e dos patrimônios culturais do Rio. Nosso lema é "Cultura+Diversidade", no qual cabem linguagens, manifestações e atividades plurais e inclusivas. Posso destacar como pontos positivos o desempenho de nossos 62 equipamentos - entre teatros, museus, centros culturais, arenas, lonas e areninhas -, com um público de mais de 7,5 milhões de espectadores em 2017, quase 3% maior que em 2016, quando tivemos as Olimpíadas. Tivemos a revitalização da Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, que era considerado um elefante branco e, em 2017, teve mais de 200 mil espectadores, 37% mais que em 2016, além de ter ampliado e diversificado sua programação. Demos início à criação do Museu da Escravidão e da Liberdade (nome ainda provisório), que já conta com parceria da Unesco e está em fase de implantação. Reabrimos o Terreirão do Samba, que agora funcionará o ano inteiro com programação pautada na valorização do samba e dos sambistas e, veja só, por meio de uma parceria com uma empresa privada (escolhida por licitação) que aportou R$ 3 milhões no espaço. Promovemos duas iniciativas inéditas na Prefeitura: o "Mês da Diversidade", com atividades LGBTQIA e de inclusão de pessoas com deficiência, e o "Mês da Consciência Negra", com agenda exclusiva de projetos de matriz africana. Nossa equipe elaborou também um estudo para projeto de lei, que está sendo enviado à Câmara de Vereadores, propondo a criação do Fundo Municipal de Cultura, com o objetivo de proporcionar maior aporte de recursos e maior autonomia no orçamento para investir na cultura carioca.

 

 

REIS -  O carnaval é a maior expressão cultural de nossa cidade. A senhora não acha, que a gestão do carnaval deveria ficar sob o comando de sua secretaria? 

 

Nilcemar - Eu acredito que talvez uma gestão compartilhada pudesse ser uma boa opção. É preciso implementar uma política pública que faça com que as escolas de samba sejam valorizadas culturalmente, que funcionem durante todo o ano à altura de sua história e de sua capacidade de mobilização social. É muito pouco e é auto destrutivo que as escolas funcionem visando apenas a um desfile em que o sambista não é mais o protagonista e que a maioria do povo sequer tem condições de assistir ao espetáculo.

 

 

REIS -  A senhora cresceu dentro do samba e do carnaval e pode falar com propriedade sobre o assunto. Qual o maior problema que o carnaval enfrenta para que um evento tão lucrativo não seja auto sustentável e a maioria das escolas de samba, principalmente dos grupos de acesso, necessitam tanto da verba da prefeitura?

 

Nilcemar - Eu sempre fiz questão de frisar que minha preocupação é com o sambista. Sem ele, uma escola de samba é o mesmo que um corpo sem alma. E já há algum tempo que as escolas começaram a virar as costas para suas comunidades de origem e as quadras foram deixando de ser uma referência afetiva, de convivência cultural e social. As escolas começaram a esconder o sambista, a tirá-lo do protagonismo dos desfiles. Houve um tempo em que a força de uma escola estava em seus compositores. Hoje ouvimos sambas que já não são marcantes, que não tocam nas rádios nem são esperados ansiosamente pelo público a cada ano. Sambas que foram enquadrados em uma forma e em andamentos que destroem a riqueza melódica e o encantamento que produziram obras primas antológicas. Os sambistas ficaram em último plano, desfilam emparedados por alas militares, coreografias e alegorias gigantes até na comissão de frente. O principal ativo do carnaval, que é o sambista com seus saberes e sua identidade, foi desvalorizado pelo próprio carnaval.

A gestão das escolas de samba passou a pensar uma escola de samba apenas como produtora de um grande espetáculo, o desfile na Marquês de Sapucaí. O desfile passou a ser tratado e gerido apenas como um produto de entretenimento. Os valores culturais e sociais não são levados em conta e são justamente estes que tornaram o desfile um bem cultural tão valioso. O samba tem que pulsar nesta cidade e, principalmente, nas escolas de samba o ano todo. E isto movimenta toda uma cadeia produtiva, seja numa perspectiva comunitária, seja numa perspectiva maior, inserindo as escolas em um roteiro de turismo cultural e de produção e consumo de cultura durante todo o ano. O samba é a maior ativo cultural da cidade do Rio de Janeiro. 

 

REIS - A senhora já sabe se fará a entrega da chave da cidade ao rei momo esse ano, como foi feito em 2017?

Nilcemar - Esta agenda ainda está em definição.

 

 

REIS -  Para finalizar, a senhora desfilará pela sua Mangueira ou alguma outra agremiação nesse carnaval?

 

Nilcemar - Eu desfilo na Mangueira desde menina mas por força do cargo que ocupo hoje não poderei participar do desfile.  Mas meu coração continua ao ritmo do surdo da minha verde e rosa.  Como diz o samba: "Cuidado que a Mangueira vem aí! É bom se segurar, a poeira vai subir!".

 

 

 

 

 

 

 

Obs.: Todas as fotos acima foram retiradas da página pessoal de Nilcemar Nogueira.

Please reload